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Crônicas & Contos

DE PERFEIÇÕES E IMPERFEIÇÕES - 09 de abril de 2015
FOGO-PAGOU - 27 de fevereiro de 2015
PRETINHOS - 25 de outubro de 2014
VINGANÇA? - 21 de março de 2013
GUETOS? - 11 de janeiro de 2013
DE REPENTE - 05 de junho de 2012
SOLIDARIEDADE - 15 de maio de 2012
SOBRE SILÊNCIOS E OMISSÕES - 04 de maio de 2012
ESPELHOS - 12 de abril de 2012
CANÇÕES... - 30 de março de 2012
SOBRE AMIGOS E AMIZADES - 06 de março de 2012
FRANK (FRANCINALDO) - 29 de dezembro de 2011
PARÂMETROS - 14 de dezembro de 2011
REDEMOINHOS - 07 de dezembro de 2011
RADICAL - 01 de dezembro de 2011
ANOS DE CHUMBO - 25 de novembro de 2011
UMA VIAGEM - 14 de novembro de 2011
TRÁGICA VIAGEM - 13 de novembro de 2011
SOLIDÃO - 03 de novembro de 2011
UMA SERENATA - 02 de novembro de 2011
AMOR ETERNO - 01 de novembro de 2011
VELHO BAÚ - 31 de outubro de 2011
VIVER DÓI - 30 de outubro de 2011
LOUCOS ANOS - 29 de outubro de 2011
AS MARCAS DOS AMIGOS EM NÓS - 28 de outubro de 2011
QUANDO DE MADRUGADA (OUTRA VEZ CIPRIANO) - 27 de outubro de 2011
UMA SEXTA FEIRA - 27 de outubro de 2011
CIPRIANO - 26 de outubro de 2011
QUASE EXÍLIO - 25 de outubro de 2011


DE PERFEIÇÕES E IMPERFEIÇÕES
09 de abril de 2015
   Somos imperfeitos, todos nós. Ainda bem. A perfeição é, ou seria se existisse, uma chatice. Todos cometemos erros e acertos. Só que as circunstâncias mudam; e há acertos que acabam produzindo coisas pra lá de erradas, bem como erros que vêm a se revelar acertadíssimos. E aí teremos “escrito certo por linhas tortas”, o que o famoso aforismo determina ser exclusividade de Deus. E aqui, abrindo um parêntese, independentemente do meu agnosticismo (ou, melhor dizendo, ateísmo – até porque “agnosticismo” me parece mais um ateísmo envergonhado, e eu tenho uma certa vergonha de ser envergonhado….) a lógica me obriga a concluir que, se a ação errada foi minha, e dela resultou um acerto, quem escreveu certo por linhas tortas fui eu.
     Mas estou tergiversando. Fecha o tal do parêntese. Eu falava da nossa, bendita, imperfeição. A perfeição, já dizia Gilberto Gil, é uma meta. E é isso que ela tem que continuar sendo: uma meta. Para que continuemos, sempre, nos aperfeiçoando, ou seja, evoluindo, mudando (ou tentando mudar) pra melhor. Nada poderia ser mais chato, entediante, paralisante (e imperfeito...) do que a perfeição, já que nos tiraria a motivação pra seguir em frente.
     Lá pelos meus vinte e poucos anos, numa tentativa tresloucada (jovem é outro papo, como dizia Chico Anísio) de definir amor, escrevi que “amor não é a chegada, é o caminho” - o que, vejo agora, tem muito a ver com esse papo de perfeição/imperfeição. O fato de que, tentando coerência com este meu verso, andei por caminhos duvidosos (e conheci chegadas maravilhosas), magoando (ou premiando, o que, para o raciocínio, dá no mesmo) quem não merecia, só vem a confirmar essa minha (imperfeita) tese sobre ao lado bom de sermos imperfeitos: todos nós, eu e aqueles a quem eventualmente magoei seguimos vivendo em busca de algo (ou alguém) melhor.
     E a saudade (ou o alívio – cada caso é um caso...) que sentimos nos diz o quanto evoluímos, ou nos aperfeiçoamos, já que tal saudade, ou tal alívio, só revela que estamos mais sábios, embora não o suficiente pra não errar de novo.  Como já falei outro dia, o futuro (adeus? pertence...
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FOGO-PAGOU
27 de fevereiro de 2015

FOGO-PAGOU (Aroldo Galindo)

Geraldinho é um menino franzino, no auge dos seus onze ou doze anos. O cabelo preto e liso está cortado à jaquideme, pra demorar a crescer, que o dinheiro em casa é curto. Tá bronzeado, “quase preto”, como diz a madrinha, dos dias e dias sob o sol do sertão de Pernambuco, correndo atrás de bola, passarinho e lagartixa. Pendurada no pescoço, uma baleadeira, que ele mesmo fez, com forquilha de marmeleiro e tiras de borracha preta – pedaços de câmara de ar comprados na feira.


Acordou bem cedinho, pra acompanhar o padrinho na ordenha das vacas e no café da manhã, com cuscus de milho e queijo de coalho assado. O que ele mais gosta nessa hora (além de uma fatia de queijo “grande e grossa” - como ele honestamente afirmou ser sua preferência, quando os adultos se declaravam em favor de uma “mais queimadinha” ou “mais derretida”….) é de ouvir os aboios que o padrinho canta entre uma garfada e outra de cuscus.

Ainda não é nem sete da manhã quando ele toma um último gole de café com leite, e cai no mundo. A primeira providência é encher os bolsos com pedrinhas bem escolhidas – as melhores são as arredondadas, mais ou menos do tamanho de uma pitomba madura –, pra garantir a munição pro badoque. Faz isso no caminho da casa de Lourinho, que já está à espera, com seu bisaco e sua baleadeira remendada, apelidada de “canhão”, por causa da força das borrachas e da pontaria do dono, que, pelo menos nesse setor, deixa Geraldinho no chinelo: não tem um dia que não volte com uma ou duas rolinhas no bisaco, enquanto Geraldinho só acertou uma lagartixa, que vem arrastando amarrada com uma tira de casca de imbira.

Olhando assim de passagem, os dois moleques não se distinguem quase nada; só prestando bem atenção dá pra se notar umas diferençazinhas, na roupa, no falar, que denunciam ser Geraldinho de classe mais remediada: é sobrinho do fazendeiro (afilhados, todos são, como é de praxe na zona rural do sertão de Pernambuco), e Lourinho filho de morador da fazenda. Se bem que, no caso de Geraldinho – cujo pai, apesar de também pertencer a família de fazendeiros, sempre viveu de biscate em biscate, aventurando algum sonho que nunca se realiza –, os privilégios praticamente se limitam ao conhecimento que lhe vem das dezenas de gibis e livros de aventura em que já mergulhou, tesouros resgatados dos baús da casa da madrinha, estórias que costuma derramar nos ouvidos extasiados dos moleques do povoado, reunidos na calçada da Igreja, à tardinha ou no começo da noite.

Mas nesta manhã, por exemplo, Lourinho não pode acompanhar toda a expedição, pois antes das nove tem que ir buscar água no barreiro, o varão no ombro, equilibrando dois latões, pesados demais para seus doze anos. Desse tipo de missão Geraldinho está livre: esta é mais uma vantagenzinha que a classe social lhe proporciona. Por isso, é sozinho que ele pega o caminho da cachoeira da Lajinha, onde a passarinhada costuma descer pra beber água. Não anda mais do que alguns minutos, porém, e um canto de rolinha fogo-pagou faz com que ele saia da trilha e se embrenhe na caatinga: ouve o canto do passarinho, bem ali adiante, anda uns dez metros, ele já canta mais à frente. De novo: ”fogo-pagou”! Agora tá bem pertinho; ele se abaixa pra evitar um galho de jurema, avança mais dez, vinte metros, e já está a danada da rolinha cantando lá depois daquele pé de coração-da-índia, pelo qual ele passa sem nem olhar pra ver se tem algum fruto maduro, tão determinado está em caçar a pestinha. De repente, silêncio. Geraldinho olha em volta e vê que está numa clareira, coisa não muito comum na região. Um círculo de chão limpo, arrodeado de pés de jurema, cujos galhos cheios de espinhos se entrelaçam, como crianças brincando de roda em torno dele. Apura o ouvido e percebe que a caatinga silenciou de todo: nem um chiadinho de calango nas folhas secas, um trinado de grilo, nada. Só o silêncio. Ele se dá conta que não sabe onde está; não se lembra de jamais haver passado por ali, apesar de suas tantas andanças. Um medo imenso vem crescendo dentro do seu peito, as dezenas de histórias de assombração, ouvidas desde sempre, lhe vêm à lembrança num bolo só. E aí não tem jeito: ele sai dali desembestado, passa pelos galhos de jurema sem nem sentir os lanhos que os espinhos fazem nos seus braços; corre por uns dez minutos ou mais, sem escolher direção. Só para quando o fôlego lhe falta. Olha em volta e reconhece, aliviado, o caminho da cachoeira. Os sons da caatinga estão de volta. Lá longe, o canto de uma rolinha lhe dispara um risco de gelo na espinha….

A caçada dessa manhã acaba aí. Volta pra casa meio ressabiado. Ante o olhar interrogativo da madrinha, diz que tá com dor de barriga – e até toma o chá que ela faz, de cidreira, ou mastruz, ou outra erva dessas aí, que é tudo ruim que só a gota.

Nunca vai contar pra ninguém o ocorrido. Com certeza mangariam dele e do seu medo.

Também nunca mais vai caçar rolinha fogo-pagou.

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PRETINHOS
25 de outubro de 2014

PRETINHOS (Aroldo Galindo)


Ele simplesmente apareceu ali, numa manhã de sábado, bem cedinho, quando havia uns três ou quatro clientes tomando um cafezinho na padaria. Ficou sentadinho num canto da calçada, com aquele olhinho pidão de filhote de vira-lata. Era pretinho, fofo e simpático, por isso, alguém lhe deu um pedaço de pão, que ele devorou entre frenéticas balançadas de rabo.

Não saiu mais do pedaço, e, alguns dias depois, já havia ganhado um apelido – “Pretinho”, como não podia deixar de ser – e inúmeros pedaços de pão, além de uma tigelinha de água e uma bacia velha, forrada com um pedaço de cobertor, que lhe servia de cama, bem juntinho do tonel de lixo.

Por um ou dois meses, esse era o seu nome: “Pretinho”, ainda não tinha sobrenome; este veio quando ele conheceu o outro filhote que apareceu numa outra manhã, e também era pretinho: foi aí que ele virou “Pretinho Um”, pra diferenciar do outro, que foi chamado de “Pretinho Dois”.

Formaram uma dupla inseparável; dividiam tudo. Só não dormiam na mesma bacia porque era pequena demais. Pretinho Dois, bem maior, se ajeitava como podia numa cama de papelão, que era renovada vez em quando, e num outro farrapo de cobertor.

Deu-se que, numa outra manhã de sábado, quando o portuga chegou pra abrir a padaria, só encontrou a bacia e o papelão: os dois pretinhos haviam sumido. Ninguém sabia pra onde teriam ido. O sumiço foi assunto do pessoal por uma semana ou duas; depois esqueceram. Até que alguém trouxe a notícia: parece que estavam presos, numa instituição, ou empresa, sei lá. Falou-se que estavam dormindo no chão frio, sem ao menos o cobertor, o papelão e a bacia, conforto a que estavam acostumados, sofrendo toda espécie de maus tratos. E a tal instituição, ou empresa, os mantinha enjaulados, junto com outros filhotes, e eram usados como cobaias em experiências que, alegavam, resultariam em benefícios para a saúde pública.

Não se sabe ao certo se tais alegações procediam ou não; o fato é que submeter filhotes inocentes a condições tão degradantes, em nome seja lá do que for, trouxe revolta e indignação a todo o pessoal do bairro, especialmente àquelas pessoas que os conheciam e que neles haviam derramado sua caridade, sob a forma de pedaços de pão, retalhos de cobertor ou um novo papelão para servir de cama.

Em pouco tempo, depois que alguém postou numa rede social fotos de Pretinho Um em sua cama-bacia, quase gordinho, e outras em que ele aparecia magro e cheio de chagas numa jaula da tal instituição, ou empresa, organizou-se uma expedição, numa madrugada, e dezenas de pessoas revoltadas arrombaram os portões, invadiram o local, arrancaram as grades das jaulas e resgataram Pretinho Um e outros filhotes de vira-lata que ali estavam encarcerados.

Pretinho Um voltou para sua cama-bacia e seu pedaço de cobertor, onde vive até hoje – e já é um vira-lata adulto, mas ainda simpático. De Pretinho Dois não se tem notícia certa. Sabe-se apenas que não foi resgatado naquela madrugada, pois alguém alertou que filhote de gente vivendo na rua é muito perigoso: sempre acaba por virar bandido. Era melhor deixar onde estava.

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VINGANÇA?
21 de março de 2013

   VINGANÇA? (Aroldo Galindo)

 

   Beira-mar de Olinda, início dos anos oitenta, manhã de uma terça-feira de carnaval. Ainda não haviam derrubado os bares que se debruçavam sobre o mar. Eu havia iniciado meu processo de cura-ressaca-e-bate-o-centro-pra-outra, o que significa dizer que já havia tomado umas duas geladinhas e estava avaliando se já dava pra encarar um “ele-ela” (esclareço pra os desinformados que este era/é o apelido pernambucano pra um casamento que nunca deu em divórcio: uma caninha e um caldinho. Minha preferência era uma caninha Serra Grande e um caldinho de feijão mulatinho bem apimentado – mas isso nem vem ao caso, só comentei por uma questão de saudade e água na boca... Também, não é merchandising, pois a cachaça Serra Grande, se não me engano, nem existe mais).
    Voltemos ao fio da meada. Lá estava eu, a bordo de um boteco entre o mar e a rua, apreciando aquele desfile único de caras e cores composto pelos que estão dando início ao seu mister de foliões - ou encerrando o expediente etílico-carnavalesco do dia anterior. Aí um bêbado me chamou a atenção; não porque estivesse bêbado pois ele não era o único nessa condição naquele desfile de pierrôs, colombinas, caboclos-de-lança, bailarinas, cangaceiros, piratas e “pessoas-cinzas-normais”, mas porque ostentava um ar filosófico-pensativo, que não combinava muito bem com a bermuda sarrabulhada, a camiseta cor-de-burro-quando-foge e a sandália japonesa (é assim que a gente chamava as sandálias havaianas, quando ainda não eram chiques nem caras). Foi quando nosso amigo protagonizou a cena de que nunca me esqueci: parou, meteu a mão no bolso e tirou de lá um bolo de dinheiro-de-bêbo (as notas todas emboladas e amarrotadas), olhou pra ele com uma cara bem concentrada por alguns segundos, depois jogou tudo no chão, pisou e esfregou com vontade. Em seguida, apanhou o bolo de novo, colocou tudo no bolso, já com um ar tranquilo e despreocupado, e seguiu seu caminho, sem uma palavra.
    De lá pra cá, muito já especulei sobre o que teria pensado nosso herói naquele momento. Não vou citar aqui nenhuma das possibilidades que imaginei – deixo pra cada um dos que acaso venham a ler essas mal-traçadas arriscar suas hipóteses. Mas uma coisa, pra mim, é inquestionável: pisar em dinheiro tem, no mínimo, um maravilhoso sabor de vingança!
    Ah, o carnaval...

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GUETOS?
11 de janeiro de 2013

GUETOS? (Aroldo Galindo)

  Que não me classifiquem como um velho resmungão, mas aqui do alto da minha juventude quase sessentona, diante da desgraceira geral que vem se espalhando feito praga bíblica sobre os corações e mentes de jovens e nem tanto, me percebo cada vez mais intolerante, cada vez mais pessimista, cada vez mais solitário. O novo sempre vem, como disse Belchior (que ninguém mais sabe quem é – ou talvez já ouviram falar que é um cara aí que foi embora...), mas convém não confundir alhos com bugalhos, ou novo com novidade.

    Nem pretendo discutir, por exemplo, a questão da qualidade das musicas que fazem sucesso – a desgraceira nessa área é tão avassaladora que nem dá pra discutir. Discutir com quem, aliás? Nesse setor, parece que o debate se resume a catalogar o que é “música de velho” e “música de jovem”, conceitos que nada significam e que aprendi a rejeitar antes dos quinze anos, ouvindo músicas de Noel Rosa, que morreu dezessete anos antes de eu nascer.


    Integrante da última geração que sonhou coletivo, vejo-me na incômoda condição de ter que reconhecer que minha preocupação imediata e preponderante é um tanto quanto individualista: a solidão - ideológica e cultural. Aviso desde já aos modernosos de plantão que não me reconheço órfão de ideologias; contrariamente ao discurso falacioso que os poderosos de sempre querem impingir como verdade absoluta, sou a cada dia mais convicto de que, parafraseando o naturalista francês Saint-Hilaire, ou a humanidade acaba com o capitalismo ou o capitalismo acaba com a humanidade. A segunda hipótese, diga-se de passagem, vem ganhando com muitos corpos de vantagem, metafórica e literalmente falando.

    Mas volto ao mote desses rabiscos – a tal da solidão ideológica e cultural que assola meu presente e assombra o que me resta de futuro. Por exemplo, sou um modesto conhecedor de musica popular brasileira. Minha bagagem se resume, praticamente, ao que li nas capas dos discos (tá tudo lá, escrito, ou seja, com legendas, já que não tem capa de disco dublada - ou tem?), porém já (quase) não encontro interlocutores pra falar sobre o assunto. Ninguém conhece ninguém, ou nada. Em meia hora de conversa começo a me sentir como se fosse um pesquisador, uma sumidade, um velho sábio, um erudito ministrando lições sobre hieroglifos e histórias de uma civilização extinta - e eu queria apenas conversar...

    Em matéria de ideologia, então... as ideologias faliram, a História acabou quando o muro caiu (o de Berlim, lembram?). Não vem ao caso se as desigualdades, as injustiças e os mecanismos geradores de tais aberrações são exatamente os mesmos . Não interessa se quem afirma com tanta empáfia a tal falência jamais leu uma página sequer de, ou sobre, Marx, Engels, Gramsci... o fato é que as ideologias faliram, ponto! Qual ideologia mesmo? Ah, sei lá... essas aí, que faliram. Também aqui meus conhecimentos são no máximo medianos, mas suficientes pra não repetir nem aceitar chavões, clichês e sofismas a torto e a direito. E lá vem, de novo, solidão - não se trata de encontrar interlocutor que concorde; seria muito bom, pelo menos, a troca de idéias (já nem cogito de partilhar ideais...).

    Um amigo, músico da noite, recentemente me falou que a música de boa qualidade sempre teve um público minoritário, mas atualmente quem insiste nessa seara é execrado! Daqui a pouco teremos que viver em guetos, ter as portas pichadas, seremos apontados nas ruas, sei lá...

    Ainda bem que não somos imortais. Não valeria a pena.

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DE REPENTE
05 de junho de 2012

DE REPENTE (Aroldo Galindo)

    É sempre assim, de repente, sem aviso prévio, sem qualquer respeito pela nossa fragilidade. Estamos ali, seguros da mesmice sem riscos que tanto nos conforta; exercendo tranquilamente nosso ofício de agentes de manutenção da rotina universal; crentes que nada vai abalar nossa condição de habitantes do cais e que o mar continuará a ser apenas a paisagem vista da nossa janela, com ondas cristalizadas, pássaros parados no ar e espumas de isopor; que tudo continuará a seguir seu curso estabelecido: o passado já passou, e no presente não dá pra prestar muita atenção, pois estamos muito apressados e preocupados com o futuro, que (adeus?) pertence...

    Como eu ia dizendo, é sempre assim, inesperado. Lá vamos nós, caminhando por uma rua tantas vezes percorrida, ou dirigindo num congestionamento rotineiro, quando um pedacinho de canção vindo sabe-se lá de onde, um outdoor visto de relance, uma frase entreouvida de uma conversa entre desconhecidos, qualquer detalhe quase despercebido faz desabar sobre nós uma avalanche de lembranças. Uma imensa saudade superlota o pequeno espaço que vínhamos guardando no peito pra esses sentimentos superados..


    Não, claro que não estamos chorando - é essa poluição que faz os olhos arderem... “vida, minha vida, olha o que é que eu fiz”  é só um verso de Chico - não temos nada a ver com isso...


    Se as imagens do que foi se misturam com o que poderia ter sido, se pra seguirmos em frente precisamos tanto do nosso próprio perdão: isso são apenas efeitos colaterais do excesso de sobriedade. Temos que tomar um porre, urgente, que amanhã tudo voltará ao normal.

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SOLIDARIEDADE
15 de maio de 2012

 SOLIDARIEDADE (Aroldo Galindo)

     Não tenho vocação pra São Francisco; melhor dizendo, não tenho vocação pra santo, seja qual for o nome dele. Nem acredito em santos, alíás. Em matéria de religiosidade, sou um descrente, ou, como dizia Millor Fernandes: creio firmemente na descrença. O problema (ou a solução...), é que há algumas qualidades que andam dizendo ser coisa de santos; mas, na minha singela e laica opinião, são absolutamente humanas – e, como tal, estão, sem maiores dificuldades, ao meu alcance, assim também ao de qualquer um dos meus semelhantes (embora – perdoem a indelicadeza – não raro me sinto até ofendido quando vejo os tipos que tenho de chamar de “semelhantes”...).

    Por exemplo, solidariedade. Qual a dificuldade de ser solidário? Tem que ser santo pra lutar por direitos coletivos? Um ser humano comum não pode ser capaz de se dedicar a uma causa sem a possibilidade de obter alguma vantagem pessoal? Não faço o tipo “ingênuo-sonhador”, mas também não integro o time dos “quero-o-meu-e-o-resto-que-se-foda”; apenas acredito que não estamos divididos apenas nessas duas categorias. Há, entre esses extremos, muito mais gradações do que supõe nossa vã ideologia.

    Façamos um singelo raciocínio: quantos “sonhadores-não-ingênuos”, ou “quero-o-meu-mas-sem-prejudicar-o-seu”, ou ainda “topo-abrir-mão-de-uma-parte-do-meu-se-for-pra-beneficiar-quem-tem-muito-pouco” existem por aí? Isso é uma catalogação humana. Nenhuma dessas classificações preenche requisitos para canonização.

    Certo, sou forçado a reconhecer que tenho encontrado um bocado de gente do tipo “quero-o-meu-e... etc”, mas não podemos esquecer que esse é um tipo bem marcante, que costuma deixar rastros incômodos por onde passa. E, por outro lado, o simples fato de incomodar tanto já é um forte argumento no sentido de que não é uma maioria – ele só incomoda os dessemelhantes; com os iguais ele convive muito bem (só não se dão as mãos por medo de perder os anéis). E isso, se não faz desse um cordão de demônios, também não faz dos demais um bloco de santos – continuamos todos humanos. Sejamos, pois, solidários, ou, pelo menos, não duvidemos de que outros o sejam.

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SOBRE SILÊNCIOS E OMISSÕES
04 de maio de 2012

    SOBRE SILÊNCIOS E OMISSÕES (Aroldo Galindo)

     Quem cala não consente, obrigatoriamente - quem cala apenas cala, silencia. O cerne da questão, porém, são as consequências do silêncio; a tênue linha que demarca a fronteira entre omissão e consentimento. Prefiro expressar meu acordo, ou desacordo; pra não permitir que meu silêncio seja manipulado. Esta opção nem sempre me trouxe alegrias, mas nessa balança que define nossas escolhas pesou mais a consciência de cidadão; e no balanço que a vida acaba por nos exigir (não se iludam os silentes – esse momento sempre chega...) o saldo não me envergonhou.
     Que não me imaginem posando de vestal, nem de vencedor; se foram muitas as batalhas, também não foram poucas as derrotas, nem os enganos – raríssimos, isso sim, foram os silêncios e as omissões. Devo admitir (até pra quebrar de vez qualquer ideia de autocomplacência exacerbada...) que, não raro, me moveu mais o orgulho que a consciência solidária. Explico: não gosto de ser conduzido, detesto ser tratado como gado; por isso não convivo bem com a inércia – onde houver uma possibilidade de exercer minha escolha, imprimir minha digital, fazer valer minha opinião, lá estarei. Respondo a pesquisas, assino petições públicas, me inscrevo em associações, faço comentários em artigos e notícias – e, principalmente, voto; em toda e qualquer instância onde esse direito me estiver garantido: da assembleia do condomínio à eleição do Presidente da República. Não me atemoriza a possibilidade de vir a ser julgado co-responsável por algo que venha a dar errado depois. Até faço questão disso. O que abomino é a ideia de que algo ruim aconteceu porque me omiti. O meu destino, da minha comunidade, do meu Sindicato, do meu País, tem que ser escrito com um pouquinho que seja da minha caligrafia.
     E essa palavrinha - “voto” - pode conter uma multidão de orgulhos, uma imensidão de escolhas, um universo de digitais. Dentre elas, faço questão, a minha.

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ESPELHOS
12 de abril de 2012

   ESPELHOS (Aroldo Galindo)

     Os olhos estão um pouco cansados, mas ainda me encaram com aquele antigo brilho meio menino. O que há de novo é um "que" de atônito, de espanto, de estranheza; um viés investigativo, de quem busca respostas a algumas perguntas apenas pressentidas, mas não formuladas claramente.
   Também revelam uma sensação de que algo passou despercebido, um momento importante que foi visto de soslaio, uma felicidade apenas vislumbrada pelo canto do olho – e que, mesmo virando o rosto rapidamente, como num susto, não foi possível de ser apreendida: passou, camaleou-se, encantou-se. Aqui, é preciso que se esclareça, “rapidamente, com num susto” pode ter a duração de anos – o tempo revelado pelos espelhos não respeita dimensões físico-matemáticas.
   Há, por vezes, nas manhãs, um choque, uma quase-crise-de-identidade que nasce da absoluta desconformidade entre a imagem que me encara e a que me habita, recém-emergida do sonho, onde épocas e momentos distintos e distantes costumam se fundir e confundir, misturando tudo numa coexistência e simultaneidade inadmissíveis aqui, na superfície.
   Levo, sempre, algum tempo pra me desvencilhar dessa sensação nebulosa e tornar tudo lógico novamente. Aí me dou um “bom dia” e me encaro com aquele brilho meio menino que sobreviveu, apesar dos sonhos perdidos, da felicidade que passou como num susto, do conflito entre a imagem que vejo a a que me habita – e sigo em frente, embora um pouco cansado...

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CANÇÕES...
30 de março de 2012

      CANÇÕES (Aroldo Galindo)

     Canções me preenchem, me prendem e me movem. São asas e algemas, mares e cais, raízes e frutos. Nem sei se as colho ou se sou por elas colhido. Meu coração, não sei por que, tem a cor das penas do tiê; pedi pra que rasgassem as minhas cartas e acabei em pedaços junto com elas... e olha só o que o vento faz com o papel! Vento, tempo – o que os difere? Arrastam-nos e nos submetem ao seu rumo desarrumado.
      Você não sente, não vê, mas as cordas de aço podem até ser nosso único elo com a liberdade; é que há correntes e correntes – umas seguram, outras libertam – e às vezes são prisões em movimento: Villa Lobos ora é vila, ora lobos....
     
Preencho canções – ou imagino preenchê-las. As vezes as componho, mas o mais comum é que sejam elas que me compõem. São meu ofício e meu precipício, meu desenho e meu desenhista. Eu pouco saberia dizer de mim, não fossem as canções, que formulam respostas – e novas perguntas, pra que nada pare. Se não fosse assim, como eu saberia que já fui um rapaz novo encantado com vinte anos de amor? De quem seria aquela estrela, que hoje todo mundo sabe que é dela? Como eu iria compreender, tempos depois, que os sonhos emigraram sem deixar pedra sobre pedra? A ilusão continua sendo mais difícil de apagar...
      Canções nos envolvem, nos escrevem, nos descrevem. Tudo no mundo é frágil, tudo passa – menos as canções, que ficarão, voem mundo, morram astros - e continuarão a ser de nós princípio e fim.

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SOBRE AMIGOS E AMIZADES
06 de março de 2012

   SOBRE AMIGOS E AMIZADES (Aroldo Galindo)

     Amigos são o resultado do nosso investimento emocional; são o patrimônio que construímos ao longo da vida – talvez o mais importante deles. Diferentemente de patrimônios materiais, que podem ser resultados de loterias e desonestidades, não há como conquistá-los se não com tempo, dedicação e lealdade; nem há empresas de seguro que possam nos garantir contra sua perda. Não falo da perda por perecimento, que esse é a consequência natural da vida, além do que quando os amigos se vão a amizade se transmuda, apesar da dor, numa herança maravilhosa formada pela lembrança de gestos, carinhos e lições – bússolas e faróis a nos indicarem rumos em eventuais encruzilhadas e tempestades futuras.

   Tão rara é a perda de amigos, em vida, que quando ocorre ficamos tontos, desamparados e desnorteados. Isso porque o conceito de amigo não aceita a ideia de fim. Amizade é um moto-contínuo a se (re)construir; cresce com os conflitos; consolida-se com os desencontros e re-encontros. Não há como assimilar que uma amizade morreu; mais fácil é pensar que ela, na realidade, nunca existiu – foi uma ilusão (coletiva, talvez, mas ainda assim uma ilusão).

  Mas viver é um processo e caminhos fazem curvas imprevisíveis. Talvez tenhamos tomado rumos divergentes e voltaremos e nos encontrar em algum novo cruzamento da estrada – e a amizade nos diga que estava apenas se reciclando, que precisou de um tempo... Só precisamos permanecer atentos.

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FRANK (FRANCINALDO)
29 de dezembro de 2011

     FRANK-FRANCINALDO (Aroldo Galindo)

     Frank (Francinaldo, antes de ingressar no nosso grupo) era, sem dúvida, o que chamamos em Pernambuco de “um cara arretado”! Nós nos conhecemos num barzinho em Casa Amarela, no Recife, contando piadas, cada um de um lado do balcão em “u”, de onde saímos, quando o bar fechou, e partimos pra primeira do que viria a ser uma admirável e longa sequência de noitadas, no exercício de uma amizade que durou cerca de trinta anos e só foi interrompida, mesmo, quando seu coração, tão generoso com todos, entendeu de aprontar justo com ele mesmo e parou de bater, no auge da meia-idade.
   Tinha lá suas opiniões, mas sempre dava um jeitinho de adaptá-las às nossas. Quando a discordância vinha surgindo, ele emendava um “justamente!” - e mudava o rumo do raciocínio: “era isso que que eu estava dizendo!”. Pronto: sempre estivemos de acordo. Amava o consenso, mas sei de situações em que fincava o pé. Seu camaleonismo tinha limites no gosto musical e no bom caratismo – não compactuava com desrespeito aos amigos nem aos seus compositores e cantores preferidos: Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré, Taiguara, Chico Buarque, Roberto Silva... nessa linha.
    Não lembro de tê-lo visto de mau humor. Certa feita, quando alugamos, um grupo de dez ou doze amigos, uma casa num balneário em Aldeia, deu uma perfeita demonstração de sua imbatível “bem-aventurança”.   
    A casa foi alugada por um fim de semana. Já no sábado, ao iniciar a corrida pra um mergulho no lago, Frank enfiou o pé num caco de vidro – quase precisou de pontos. Mais tarde, já depois de sabe-se lá quantas cervejas, mergulhou na piscina de água corrente e emergiu sem os dois dentes da frente – a peça, meio folgada (ainda não vivíamos a era dos implantes), havia ficado lá por baixo. Conversamos com o encarregado, que mandou fechar as comportas durante a noite e veio nos trazer, pela manhã, a chapa que foi pescada no fundo da piscina – só que com seis dentes! Nunca se soube a quem teria pertencido, mas, obviamente, não era a dele, que nunca foi encontrada. Na tarde do domingo, quando nos preparávamos pra volta, abaixou-se pra pegar a mochila, próximo à janela, que estava fechada. Alguém, do lado de fora, a empurrou para dentro no exato momento em que nosso amigo se levantava... o resultado: um lanho de cerca dez centímetros no meio das costas!
    Dias depois, encontrou na rua um outro amigo, integrante da nossa trupe, mas que que por algumas contingências não havia participado desse evento e de nada sabia. “E aí?”, perguntou a Frank, “como foi lá em Aldeia?”. A resposta veio acompanhada de um sorriso “mil e um”, por conta dos dentes ainda não repostos: “Tu perdesse! Foi arretado!”
    Frank faz falta!

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PARÂMETROS
14 de dezembro de 2011

 

    PARÂMETROS (Aroldo Galindo)

    Perto das duas horas da madrugada, vinha eu, de carro, sozinho, e um pneu decidiu murchar. Ruas desertas, parei junto ao meio fio, soltei uns dois ou três palavrões silenciosos e fiquei alguns minutos olhando desolado pro reflexo das luzes nos pingos da chuva, que desabava em clima de juízo final.
    Pensei até em reclinar o banco e dormir ali mesmo, pelo menos até o aguaceiro amainar, mas a consciência dos riscos logo acendeu a luzinha vermelha da prudência – melhor enfrentar a chuva e trocar o pneu. Os poucos minutos que levei pra tirar o estepe do porta-malas, afrouxar as porcas e encaixar o macaco foram suficientes pra que eu ficasse absolutamente encharcado. A água da chuva escorria pelos óculos, transformando tudo numa imagem borrada e irritante. Comecei a movimentar a alavanca do macaco, o carro foi subindo, subindo, e, de repente, com um som de catraca quebrada, arriou de novo. Mais uma, duas tentativas e sempre o mesmo resultado: subia um pouquinho e descia de um golpe só. Sentei sobre o estepe e olhei em volta, desolado.
    Aí surgiu um outro carro lá no início do quarteirão. Fiquei olhando os faróis se aproximando, percebi que reduzia a velocidade. Nem me mexi. O carro parou bem do meu lado, o vidro foi abaixado: “qual o problema aí, véi?”. Olhei pra figura, um sujeito magricela, também de óculos, e respondi: “macaco quebrado, não tenho como trocar o pneu”. “Guenta aí”, ele falou. Em seguida, deu ré, manobrou pra que os faróis me iluminassem, desceu do carro, abriu o porta-malas, trouxe de lá um macaco a óleo, daqueles que levantam o carro em cinco ou seis sobe-desce da alavanca. Aí foi tudo rapidinho: trabalho em equipe. Em cinco minutos o pneu estava substituído e o meu amigo desconhecido voltou ao carro, tão encharcado quando eu, e arrancou. Nem deu tempo de agradecer.
    Essa é uma historinha singela, mas verdadeira.
    Como fica, diante de fatos como este, a tese de que somos todos essencialmente egoístas, de que só a possibilidade de ganhos pessoais nos mobiliza, de que ninguém se arrisca por ninguém? A quem interessa o convencimento coletivo de que não somos capazes de solidariedade, de ações desprendidas?
    Pra cada Bush, Pinochet, Jabor, FHC e similares há milhões de “amigos desconhecidos” dispostos a enfrentar tempestades e correr riscos uns pelos outros, sem nada pedir em troca, a não ser, talvez, a multiplicação de gestos semelhantes..
    A lógica capitalista, do lucro a qualquer preço, da concentração e acumulação infinita de riqueza, é apenas a lógica capitalista e não um parâmetro natural e universal. Não nascemos coisas, nascemos gente. O parâmetro natural de gente é gente; e gente gosta de sorrir, de abraçar, de brincar, sem que isso tenha que lhe ser ensinado, doutrinado, massificado.
    Estão gastando rios de dinheiro pra nos convencer que só o que queremos é rios de dinheiro - e com isso continuarem a acumular rios de dinheiro. Essa correnteza desliza fagueira sobre nossas misérias: material, na medida em que a acumulação de poucos é o reverso da exclusão de muitos; e moral, quando nos impinge um parâmetro que nos envilece.
    Eu e meus milhões de amigos desconhecidos vamos continuar resistindo – nas ruas, na chuva, nas madrugadas.

 

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REDEMOINHOS
07 de dezembro de 2011

      REDEMOINHOS (Aroldo Galindo)

     Mensagens de amigos surgem como estrelas cadentes na minha caixa postal. Falam de solidão e saudade, de distâncias desautorizadas, de coincidências no sentido das palavras. Penso, clicherosamente, em como a solidão une, a distância aproxima, a saudade... bem, essa é inimiga de multifacetas - a saudade só dói.
      O exercício da amizade nos faz sabedores (ou pretensos sabedores) de situações e sentimentos vividos pelos amigos, coisas que a gente intui mais que ouve ou vê; depois mistura com nossos próprios redemoinhos e vira tudo um vendaval só. É difícil identificar todos esses pedacinhos de lembranças, fragmentos de ideias, flashes de compreensão, que se danam a rodopiar em torno de nós...
      O fato é que de alguma forma nos compreendemos melhor, uns aos outros, quando temos dores similares, ou compartilhadas: de repente as palavras do outro nos vestem como segunda pele, ou nos despem e nos mostram no espelho uma criança espantada e sozinha.
      Escrevi há algum tempo que entre os vinte e os trinta anos ninguém nunca está só, nem preparado pra isso; mas, por outro lado, esse é exatamente o tempo de se iniciar o aprendizado, pra que se dê de forma gradativa e permita o desenvolvimento dos pequeninos e indispensáveis sistemas de defesa. A vida costuma nos proporcionar essas condições, mas exige de nós certa lucidez, uma quase premonição: lá vem o bonde, e ele nunca pára; aqui não há outro jeito - temos que pegar o bonde andando, saltar pro estribo com exatidão de atletas (e elegância de dançarinos, mas isso já é pra poucos) sob pena de, mais tarde, ter que enfrentar um eventual curso intensivo de solidão, que pode ser mais doloroso e menos eficaz.
      Acho que perdi o rumo da conversa... É culpa do tal redemoinho!

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RADICAL
01 de dezembro de 2011

 RADICAL (Aroldo Galindo)

     Tenho sido taxado de radical muito frequentemente, por várias razões e em situações diversas. Teve um que até sugeriu ingestão de vitamina “c” como tratamento contra mim, já que eu seria um “radical livre”... Até gostei da piada - considerei-a um elogio. 
    Houve momentos em que teorizei sobre o tema, assumindo-me radical, desde que no sentido de quem não se satisfaz com a superficialidade: radical – que vai à raiz; mas isso não deixou de ter certa dose de tergiversação, já que ninguém usa o adjetivo com essa conotação. Pro senso comum, radical é aquele cara chato, fundamentalista, que não admite posicionamentos contrários. Essa carapuça não me serve.
    Gosto do debate e mesmo quem me taxa de radical admite isto. Então, me pergunto, por que ainda assim me atribuem essa característica tão estigmatizante? 
   Bom, pra começar, vamos maneirar a conversa, escolhendo melhor os termos: “estigmatizante” é uma palavra muito radical... 
   Não me vejo como um radical (pelo menos, não na frequência e intensidade com que sou visto), embora muitas vezes aceite o termo por preguiça, impaciência ou falta de saco pra contestá-lo. A verdade é que qualquer um cujas ideias e comportamentos escapem da moldura do “normal” pode cair na vala (in)comum destinada aos “radicais”. E “escapar da moldura” inclui ter a consciência de que “normal” e “comum” não são a mesma coisa e nem sempre andam juntos (aliás, cada vez é mais comum a aceitação de anormalidades...) 
   Só pra instigar, vou “radicalizar”, fazendo uma pequena lista de coisas que considero perfeitamente normais e outras que entendo absolutamente anormais. Na primeira classificação:
ser ateu, não gostar de futebol, não gostar de pagode/funk/axé/sertanejuniversitário/calipsoecalcinhapreta, não gostar de calor, gostar de solidão, não assistir novela, não ter a mínima ideia de quem é aquela figura famosíssima acolá, não gostar de malhar. Na segunda: desigualdade, pobreza, preconceito, ambição, querer-vencer-e-o-mundo-que-se-exploda, acreditar em tudo que passa na TV. 
    Aceito sugestões e discussões... não sou radical.

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ANOS DE CHUMBO
25 de novembro de 2011

     ANOS DE CHUMBO (Aroldo Galindo)

     "Ocupar a Rocinha foi fácil, difícil vai ser ocupar esse morro”, diz a legenda sobre foto do Congresso Nacional, publicada no facebook. Lá no topo das torres, dois bonequinhos fardados conversam: “esse foi difícil, meu capitão!”. Em seguida, dezenas de comentários aplaudem, riem, torcem... um ou outro “gato pingado” (eu entre eles) alertam: ocupação militar do Congresso não deveria ser cogitada nem por piada!
     Isso é estarrecedor. Perdemos a memória? Esquecemos nossos amigos e parentes barbaramente torturados e assassinados; nossos livros e canções proibidos; nossos artistas censurados; nossos ideais destruídos? Estamos (de novo) embarcando no discurso falsamente moralista de uma mídia controlada pelos privilegiados de sempre, guiada pelo interesse de uma elite egoísta, preconceituosa e gananciosa?
     Desacreditar a Política e os políticos, e com eles a própria Democracia, é estratégia antiga, repetida, manjada.

     A grande mídia só repercute o que interessa aos seus (poucos) proprietários; não o que interessa ao povo e ao país. Só incautos, ingênuos ou desinformados deveriam embarcar nessa ideia de que a corrupção hoje é maior que antes. Nos governos militares, nos chamados “anos de chumbo”, a roubalheira sempre andou solta. Só um pequeno exemplo: as usinas nucleares que foram construídas com um custo dez vezes superior ao de usinas exatamente iguais em outros países - e num prazo também imensamente superior. A imprensa séria (os chamados "nanicos") anda tentava denunciar, mas o revide vinha em forma de censura, prisões e empastelamentos. Nos governos cívís que vieram a seguir, desnecessário falar de Collor e Sarney. Na era FHC, apenas os golpes das privatizações já superam, em muito, tudo o que a grande imprensa (que protegia - e protege - a trupe que comandava o país) denunciou no governo Lula. E o fato de que os denunciantes, quase sempre, são notórios bandidos, parece não impressionar ninguém... Não sou petista; sou de esquerda. Tenho amigos, no entanto, cuja capacidade de julgamento parece um tanto quanto embotada diante do massacre midiático.
    Chamar a polícia pra cuidar da Política... só de imaginar isto um calafrio me percorre! Eu era muito jovem quando tudo começou, mas ao longo dos mais de vinte anos de terror me envolvi na resistência o suficiente pra dar muito valor, hoje, ao fato não ter sido preso e torturado, como tantos outros jovens idealistas de então. Escrevi poemas e canções nesse período, que estão hoje guardados no baú de lembranças. Resolvi publicar alguns desses textos, sob o título geral de “anos de chumbo”(*). Quem sabe a emoção neles contida ajude, de alguma forma, a, como cantava o MPB4, “lembrar quem esqueceu e ensinar a quem não sabe porque nunca aprendeu” (“Nosso Mal”, de Maurício Tapajós e Miltinho).

(*) ver em "Letras".

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UMA VIAGEM
14 de novembro de 2011

    UMA VIAGEM (Aroldo Galindo)

   Corria o ano dourado de 1974. O resultado do Vestibular Unificado havia acabado de sair e por isso rolava um certo clima de euforia, principalmente na antiga estação rodoviária do Recife, no bairro de São José, que fervilhava de jovens de cabeças raspadas que embarcavam de volta pra suas cidades no interior do Estado, onde iriam receber os abraços e beber as cervejas, frutos do sucesso no disputado exame. 
     Embora fizesse parte desse contingente - aprovado pro curso de Comunicação na UFPE - eu não estava nem careca nem comemorando, pois, numa postura que não deixava de ter certa dose de arrogância (embora não tivesse consciência disso), não achava que passar no vestibular fosse motivo pra muita festa – era apenas a mudança de um ano escolar pra outro. 
     O que me levou pra estação rodoviária às sete da noite daquela quinta-feira festiva foi uma inusitada missão: conduzir um pacote de dinheiro até uma cidadezinha do alto Sertão, verba destinada ao pagamento mensal da peãozada de uma construção onde meu pai era mestre de obra. O tal pacote era um tanto quanto avantajado, principalmente porque composto só de dinheiro trocadinho, do tipo que costumávamos chamar de “couro de rato”. Já no percurso entre o terminal do ônibus do bairro e a Rodoviária, cerca de um quilômetro que tive que fazer a pé, peguei uma inesperada chuvinha – o resultado foi chegar à estação com o pacote se desmanchando e correr pra o banheiro pra tentar refazê-lo da forma mais discreta possível. Lá encontrei um conhecido (na realidade o candidato a sogro do momento) que, embora meio desconfiado de me encontrar naquela situação, carregando um monte de dinheiro vivo, me ajudou a refazer o pacote com folhas de jornal. 
     Pacote refeito, saí na carreira pra não perder o ônibus e ao adentrá-lo (superlotado, gente quase saindo pelas janelas) uma surpresa: a passagem que a construtora havia comprado era pra viajar em pé... Por conta do tal vestibular, tava tudo lotado – parecia semana de festa junina. Como não tinha mesmo outro jeito, enfiei o pacote num vão entre duas malas, procurando, com pouco sucesso, agir naturalmente e procurei me acomodar da melhor forma possível. Nem precisa dizer que esse meu “agir naturalmente” incluía lançar olhares pro pacote a cada dez segundos... 
     E lá fomos nós, eu, o pacote e uns quarenta (ou mais) carecas, rodando rumo ao Sertão. Nem bem pegamos a estrada e uma garrafa de Pitu já começou a rodar, mão em mão – vinha lá do fundo, onde uns quatro recém-aprovados haviam se acomodado em cima do motor (o ônibus ainda era daqueles em que o motor se projetava pra dentro, formando uma espécie de balcão), fazia todo o percurso até as primeiras poltronas e depois retornava. Em pelo menos duas dessas “viagens” dei minha modesta cota de contribuição à diminuição do conteúdo – até mesmo como um tentativa de relaxar e diminuir o estresse de estar viajando em pé, conduzindo um pacote de dinheiro (para o qual, a essa altura, eu já olhava apenas a cada trinta segundos...) e consciente de que só chegaria ao destino final lá pelas cinco da manhã. 
     Tínhamos rodado já umas duas horas, a garrafinha (e meus “naturais” olhares na direção do pacote) sempre fazendo seu percurso (claro que em algum momento uma se aposentava e outra se apresentava), quando surgiu, não sei de onde, um violão e a pergunta “alguém sabe tocar?”. Eu sabia. Necessário esclarecer que “sabia”, no meu caso, significava que era capaz de acompanhar, em três ou quatro acordes mal ajambrados, duas canções que eram sucesso na época: “Asa Branca", de Luiz Gonzaga, e “Mãe Menininha”, de Dorival Caymmi (pois é, música boa já foi sucesso, tocava no Rádio e os jovens gostavam, por incrível que pareça...). Eu não pretendia, claro, me apresentar como o cara que “sabia”, mas aí veio a nova proposta: “se alguém souber tocar eu dou meu lugar” - quem disse isso foi um cabeça-raspada que estava, naquele momento, segurando a garrafa e ocupava uma poltrona pertinho de mim. Bom, aí não resisti – Eu toco! O cara me cedeu o lugar, dei uma bicadinha na garrafa (a cachacinha da coragem) e soltei os dedos e a voz (logo acompanhada de um animado, “afinado” e já meio embriagado coro) em “Asa Branca”, depois “Mãe Menininha”, depois... bem, eles cantavam o que queriam e eu tocava “Asa Branca”, “Mãe Menininha”, “Asa Menininha”, “Mãe Branca”... o que mudava era só a batida e a sequência dos mesmos quatro acordes, que, reconheço, vez por outra até tinham alguma consonância com o que se cantava. 
     Bom, pra encerrar a história, a garrafa continuou fazendo seu percurso (cada vez demorando um pouco mais), os quatro acordes se sucederam outras tantas vezes, o coro foi diminuindo e sendo acrescido por alguns roncos, até que eu decidi parar, encostar o violão e colocar o pacote no colo. Cheguei até a me permitir um preocupado cochilo. Não tenho a menor ideia de onde estava o dono da poltrona, no meio daquele amontoado de carecas adormecidos. E às sete da manhã meu pai já estava fazendo o pagamento da peãozada, enquanto eu dormia um merecido sono. Se bem me lembro, sonhei com Luiz Gonzaga e Dorival Caymmi cantando juntos.

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TRÁGICA VIAGEM
13 de novembro de 2011

TRÁGICA VIAGEM (Aroldo Galindo)

A partir da canção homônima de Paulo Guimarães - um autoperfil de um imaginário autor

     Trágica – essa é a palavra mais forte. Por que trágica? Quem poderia aprová-la, ou contestá-la? A viagem de cada um é de cada um; minha tragédia é minha porque quem a viveu fui eu, o que não quer dizer que a escrevi. Por sinal, nada mais trágico que ter que viver um enredo de que não somos autores. Não que eu me assuma marionete - aliás, se me assumisse já não o seria, pois que é da essência do fantoche a incapacidade de assumir qualquer coisa... 
     Não, repito, não me assumo marionete, pois estou certo de que nada é certo (nem no sentido de correto, nem no de inevitável), nem meu controle dos cordões do meu destino, nem a existência de um controlador além de mim. Mas o fato é que me tornei o que sou: amargo, sem dúvida, mas com uma imensurável capacidade de doçura, que abomino em público (e, às vezes, no íntimo) mas que vez por outra extravasa em pequenos (ou grandes) gestos de que me orgulho ou me envergonho conforme o papel que no momento os (meus) cordões (me) estejam impondo. 
     Tenho uma imensa, e dolorosa, consciência da minha capacidade desperdiçada, despedaçada. Sou maior do que o que me tornei, mas sei que poderia me tornar maior do que o que sou, se tivesse apenas um pouquinho mais daquilo que se convencionou chamar de jogo de cintura (pura hipocrisia, eu diria, só pra provar que é algo que não tenho mesmo – aliás, “só pra provar” é uma das coisas em que mais penso quando ajo impensadamente...). 
     O amor me preenche, sempre me preencheu, mas não falo muito nele (até já fiz isso antes, quando mais jovem e mais maduro, mas hoje ajo como se fosse apenas passado), com a desculpa de que o amor tem que falar por sí, mesmo sabendo que seria na minha voz que ele teria voz – e que muitas vezes me calo só pra que ele não grite tão alto. Talvez venha desse conflito a bifurcação do meu caminho, onde segui as duas vias, simultaneamente, e construí duas realidades paralelas – numa eu estou e a outra está em mim. 
     Adiante, vislumbro mais uma encruzilhada. Por enquanto, permaneço parado, esperando que a estrada me alcance, que a canção me cante, que a valsa me dance...

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SOLIDÃO
03 de novembro de 2011

     SOLIDÃO (Aroldo Galindo)

    solidão dói, mas com certeza doeria menos se assumisse sua condição de ser só; se não insistisse em vir tão acompanhada. Com ela sempre vem uma legião de lembranças, desejos, saudade (do que foi e do que poderia ter sido), sonhos esfumaçados, decisões definitivas abandonadas (somos, definitivamente, transitórios...) e outros demoniozinhos semelhantes.
     É verdade que nem sempre somos culpados, mas não é (só) de culpa que se compõe essa dor. Como me questionou um amigo, quando lhe mostrei a canção “Eterna Espiral”, que fiz com Paulo Guimarães: nem todos os vendavais nascem de nós. Eu não lhe disse naquele momento, mas acho que nascem, sim (mesmo sem expandir o sentido de “nós” pra abranger o substantivo – os “nós”, cegos ou frouxos, que damos na nossa vida a cada passo), até porque estes vendavais não são fenômenos físicos, são sempre o resultado de ações pessoais; nossas, portanto.
     Mas voltemos à dolorosa contradição da solidão: o que dói é o que a acompanha. A maioria de nós (acredito) não tem assim tão grandes problemas com a consciência de suas limitações, fraquezas e coisas afins; o difícil é conviver com as consequências, os desdobramentos, das nossas decisões: magoamos quem amamos, dizemos coisas em que não acreditamos, tomamos rumos que não queríamos - e explodimos as pontes após atravessá-las (aí o retorno talvez fosse até possível, mas está além da nossa capacidade e fôlego – ah, que incompetentes atletas somos nesses esportes emocionais...). E é na solidão que o que fizemos da nossa vida se nos apresenta. E cobra. E dói...
     Um amigo acabou de me ligar, chamando pra uma cerveja. Vou deixar a solidão ocupada em preencher esse quarto de hotel – na mesa de bar ela não costuma ficar muito à vontade... 

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UMA SERENATA
02 de novembro de 2011

 UMA SERENATA (Aroldo Galindo)

     Era uma época em que ainda se faziam serenatas. Poucas, é verdade - já não era mais a vez da geração Nelson Gonçalves e da boemia romântica e suas noitadas regadas a cerveja, fossas e canções, tudo em doses generosas -, mas ainda havia algum encanto em soltar a voz, acompanhado por um violão, à janela da amada, de madrugada. E as musas a quem eram dedicados esses gorjeios, nem sempre muito afinados, ainda se sentiam lisonjeadas, embora já com um leve gostinho de “cafonice” (eta palavrinha cafona essa...).
     Mas o herói dos eventos que ora se pretende narrar, embora na casa dos vinte anos, não era de dar muita bola pra essa história de cafonice. Era romântico, vivia apaixonado, arranhava um violão, tinha um bom conhecimento do cancioneiro popular, que ele dividia em em apenas duas categorias: músicas boas e ruins; sem dar qualquer importância a rótulos do tipo “antigo” ou “novo”, ou, como se diria atualmente, “música de velho” e “música de jovem”.
     No auge do seu amor eterno do momento, resolveu dedicar à sua bem-amada uma serenata do tipo pacote completo: canções escolhidas a dedo, voz embargada e violão solitário. Se bem que solitário só o violão, o herói não, pois serenata que se prezasse não se fazia sozinho – arregimentava-se pelo menos um amigo, que normalmente já vinha participando do evento desde as prévias, que consistiam, basicamente, no compartilhamento de uma dúzia de geladinhas no boteco da esquina, esperando a madrugada chegar.

     Tudo pronto, canções escolhidas, violão a tiracolo, emoção etilizada, madrugada no auge, lá se foram os dois, rumo à janela da musa. Aí tinha um porém: ela morava numa daquelas ruas comuns nas cidades do interior, onde as casas são tudo coladinha uma na outra, sala de frente pra rua, quartos nos fundos – e pra complicar mais um pouco o quarto dela era o último, janela pro quintal. A solução encontrada foi ir soltar a voz num bequinho de metro e meio de largura que passava por trás das casas, cada uma com um portãozinho que hoje poderíamos chamar de “saída de serviço”.
     Pensado e realizado. Com o amigo proporcionando um importante “apoio moral”, três ou quatro canções foram espalhadas no ar friozinho da madrugada e, se bem que endereçadas à janela do quarto dela, sobrevoaram os muros e ganharam os quintais contíguos, até que umas luzes acendidas, alguns resmungos irritados e uns latidos não muito amigáveis, todos vindos de uma casa vizinha, indicaram ser mais prudente encerrar a sessão romântica e voltar pro boteco, na esperança de encontrá-lo ainda aberto.
     Dia seguinte, hora de bater o ponto no portão (da frente) e colher os frutos da empreitada. E antes mesmo do nosso herói perguntar se ela gostou já ouviu as novidades: "Ôi, amor, nem te conto! parece que o namorado de Lucinha (a vizinha...) inventou de fazer uma serenata pra ela aí nos fundos e o pai dela acordou e botou o cachorro atrás do cara... depois ainda deu uns tapas na coitadinha e botou ela de castigo pra não inventar de namorar vagabundo! Vovó também acordou com a zoada e saíu pro quintal de madrugada... acabou pegando um resfriado, nem levantou da cama hoje de manhã. E eu, do jeito que tenho o sono pesado, não ouvi nada!"
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AMOR ETERNO
01 de novembro de 2011

     AMOR ETERNO (Aroldo Galindo)

     Pura redundância: se é amor, é eterno; somos nós que passamos. É só dar uma olhadinha naquele álbum de lembranças que às vezes fica dando voltas em volta de nós depois do terceiro ou quarto copo. Lá estamos nós, comprando uma passagem à prestação pra voltar àquele lugar de onde acabamos de chegar, porque uma saudade sem medida nos empurra de volta; fazendo uma serenata num bequinho atrás do muro, porque a janela do quarto dela fica voltada para o quintal (e ao final levando carreira do cachorro do vizinho); emprestando o primeiro fusquinha pro pai dela, que nem tinha habilitação... aqueles primeiros beijos no portão valeram todos os riscos; compondo uma canção pra ela, enquanto ela dorme, embriagado e embevecido...
     E não é só de loucuras e abestalhamentos que as espirais de lembranças se compõem. Também está lá o nascimento do primeiro filho e aquela sensação de “maravilhamento” ao colocar nos braços aquela coisinha frágil, que nos prova que somos deuses; as noites passadas em claro, dando cabeçadas contra o sono, velando pela respiração da amada febril; a comunicação silenciosa, em que um simples olhar diz tudo, e um feliz sorriso interior nos preenche por completo. Esses momentos estão lá, guardados – existiram, e por terem existido um dia, continuarão a existir pra sempre.
     Pouco importa se já não somos os mesmos, se depois a vida nos mudou, ou nós a mudamos; se as distâncias, físicas ou não, se tornaram tão reais e intransponíveis. O fato é que nós passamos – os momentos mágicos continuam lá, e, sem dúvida, são o melhor de nós. Eternos.


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VELHO BAÚ
31 de outubro de 2011

VELHO BAÚ (Aroldo Galindo)

     Remexo caixas de guardados. Sorrisos de outros tempos saltam e vêm brincar de esconde-esconde no meu peito agora mais maduro, ou mais cansado. São travessos e felizes. Versos adolescentes me contam histórias de paixões eternas que findaram; poemas revoltados me reenvolvem em lutas contra tiranos que sobreviveram; sonhos dourados pedem, quase suplicam, pra que eu finja que eles não morreram...
    Imprudentemente, permito-me a audácia de um balanço. A contabilidade do tempo não costuma ser muito generosa (a felicidade de outrora se transmuda em dor – nunca apreenderemos inteiramente a noção do não-poder-ser-de-novo...). Inevitavelmente terei sido menos do que poderia, ou mais do que deveria.
    Recortes de jornais antigos me falam de pequenas glórias que me pareceram tão grandes – questão de proporcionalidade, talvez... É quase trágica essa nossa mania de querer comparar coisas tão díspares como o que fomos e o que somos.
    Continuo vasculhando meu velho baú, procurando algo que falta, não sei bem o que, sei que está por aqui em algum lugar – talvez um amarelado mapa de tesouro, o caminho da fonte da juventude, o segredo da vida, um testamento improvável do eu-de-ontem pro eu-de-hoje, do jovem sonhador para o homem teimoso.
    Vou removendo camadas, minerando pedacinhos de memória, de dentro pra fora, de antes pra agora. Erros mais antigos já recobertos por uma crostazinha de perdão. Quanto mais perto, menos cicatrizado, mais doído. Versos adolescentes, poemas revoltados, sonhos dourados, cristais partidos, olhos embaçados...
    É melhor fechar o baú e abrir uma cerveja.


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VIVER DÓI
30 de outubro de 2011

     VIVER DÓI (Aroldo Galindo)

       A cada encruzilhada, a necessidade de uma decisão. E lá vamos nós, dobrando esquinas, seguindo em frente, pegando atalhos. Alguns tentam seguir sempre pela rua já conhecida, pela avenida mais iluminada, mais preocupados com o caminho do que com o destino; outros enxergam lá adiante o clarão de um sonho e em sua busca se embrenham por ruas escuras e estreitas vielas, com solene desprezo pelos perigos; pra esses, vale mais o destino que o caminho.
     Quantas vezes, porém, a rua conhecida nos revela inesperados revezes, ou o sonho buscado um brilho fugaz, ouro de tolo...
     Não há garantias nas escolhas - de certo só os calos e as cicatrizes; nem mesmo o aprendizado que nos garantiria um eventual ofício de guias, já que a geografia da vida é eterna mutante: por onde se ia não se vai mais, a estação fechou, desativaram o cais, o sonho acabou.
     Ah, de certo, também, a dor.
     Porque nunca se caminha sozinho. Somos tantos caminhantes: a esmo ou com o brilho do sonho nos olhos; no mesmo rumo ou inventando a contramão uns dos outros.
     Mas os mais felizardos de nós por vezes descobrimos que mais que o caminho, ou a meta, vale a parceria na caminhada: as mãos dadas, o apoio no eventual tropeço, a solidariedade na escolha do rumo, a divisão do peso da bagagem, o doce calor nas noites mais frias, o incentivo nas ladeiras mais íngremes; de repente, o caminho é bom porque se caminha juntos, o rumo é certo porque de comum acordo, o sonho é real porque nosso (e não meu).
     Mas, caminhantes de primeira viagem, que somos, sempre, sinais e placas nos desorientam, deciframos signos com diferentes chaves e conclusões díspares; as palmas das nossas mãos deslizam em distonias e dessintonias; erramos a mão, o rumo, e lá vamos nós, dobrando esquinas em sentido contrário, perdidos. Agora, com uma nova companhia, que nunca mais nos abandona: saudade; doida, doída.

 

     

 

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LOUCOS ANOS
29 de outubro de 2011

     LOUCOS ANOS (Aroldo Galindo)

    Fala-se muito nos loucos anos sessenta, ou setenta, ou oitenta... a década depende sempre de quem esteja falando. O certo é que loucos são sempre aqueles anos em que fomos jovens - e, por isso, fazíamos loucuras. Se dizemos fazíamos é porque se trata de coisas que não fazemos mais, claro. Caso contrário, ainda seriamos loucos e aí talvez não tivéssemos loucos anos qualquer coisa pra recordar com saudade, pois estaríamos muito ocupados em viver os loucos anos agora...
     O fato é que há uma espécie de consenso geral sobre o fato de que no passado sempre foi melhor, ou fomos melhores, independente de que isto possa envolver alguma contradição insuperável entre os bons tempos de uns e de outros. Mas o que a lógica não aceita a emoção autentica fácil, fácil. E entre lógica e emoção é lógico que a emoção sempre prevalece... pelo menos nesse tipo de valorações. De qualquer forma, não daria pra ter saudade do futuro, mesmo que a lógica permitisse, já que não faria muito sentido dizer: "lembra quando a gente tinha coragem de não se embriagar, de não se apaixonar, de não se arriscar, de não sonhar...?"
     No meu caso, tenho lá meu pedaço de loucos anos setenta, com uma boa fatia de loucos anos oitenta. Até que andei comentendo algumas loucuras depois disso, mas agora não há muito de romântico ou elogiável nisso - a avaliação geral seria mais pra irresponsável do que pra idealista ou sonhador....
     Mas a razão que me levou a falar dessas coisas é que andei lembrando de versos que escrevi nos meus loucos anos e resolvi publicá-los aqui, exatamente sob o título geral de loucos anos. Sobre sua qualidade, atualidade ou intensidade, cada um que faça sua avaliação. Só posso dizer que, com toda certeza, foram escritos com louca sinceridade. 
     

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AS MARCAS DOS AMIGOS EM NÓS
28 de outubro de 2011

      AS MARCAS DOS AMIGOS EM NÓS (Aroldo Galindo)

   Um dia desses recebi um email onde alguém falava que os amigos deixam marcas uns nos outros, mesmo que às vezes não queiram. Aí fiquei pensando. Busquei o que tenho dos amigos dentro de mim... e não encontrei nada que eu preferisse não ter (reconheço que há algumas lembranças que têm um certo travo, um saborzinho meio ardido, mas ainda assim coisa que eu não expurgaria, nem se pudesse; até porque sei, hoje, que, quase sempre, aquele tempero errado, ou aquele descuido, que acabou por estragar um ou outro prato do maravilhoso banquete que a amizade nos proporciona vida a fora teve minha contribuição, sozinho ou em parceria).
      E, pensando, bem, não sou muito mais que a soma dessas marcas. 

      De um, lá na adolescência, guardei o companheirismo, a obrigação de fidelidade, tão bem definida na frase que nos guiava, verdadeira lei, que não admitia ilicitudes: “amigo é aquele que é na ida e na volta”. 
      Mais na frente, outro me deu lições de consciência política, cobrando coerências e responsabilidades, até mesmo me acusando de “alienação”, por pura intransigência ideológica - coisas da época...

      Adiante, um outro (imenso poeta que era – e continua sendo) me ensinou de talentos maravilhosos que a timidez pode ocultar; e da arrogância que nos habita e pode nos impedir de vê-los. 
Houve aquele, companheiro de tantas boemias, que nunca foi capaz de uma palavra ríspida, ou mesmo de um não, o amigo que era só carinho, e que se afastou, hoje sei (e de certa forma já sabia), simplesmente meio envergonhado por conta de uma dividazinha ridícula. Aí se foi, de repente, na flor da meia-idade. E deixou uma imensa saudade.

      E a importância da palavra, de que o que um homem diz vale mais do que qualquer papel? Essa me veio de um outro que se foi antes da hora. Aliás, nunca é hora dos amigos partirem – também por isso são tão importantes as marcas que eles deixam em nós: é um jeito deles ficarem mais um pouco.
Só nesse pequeno intervalo de lembranças já encontrei lições, marcas, que falam de fidelidade, consciência, responsabilidade, carinho, firmeza, saudade...

      Não é o caso de fazer inventário de amigos – nem são tantos, mas são tanto; e não há como se inventariar intensidades. Certo é que que só de olhar pros amigos dentro de mim já cresci um pouquinho mais. Suas marcas continuam dando frutos – e me ajudando a errar menos no tempero, e no cuidado, dos banquetes que ainda pretendo compartilhar.

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QUANDO DE MADRUGADA (OUTRA VEZ CIPRIANO)
27 de outubro de 2011
QUANDO DE MADRUGADA (OUTRA VEZ CIPRIANO) - Aroldo Galindo

   Nos conhecemos em 1974, quando ingressamos no Banco do Nordeste, em Recife. Estávamos na casa dos vinte anos e vivendo, sem que soubéssemos disso, o início do fim de uma sucessão de gerações em cujo imaginário a possibilidade de um mundo melhor ocupava mais espaço que o sonho do sucesso individual. Estávamos ainda em plena ditadura e isso, por paradoxal que pareça, talvez fosse um fator a nos impulsionar nesse sentido mais solidário e menos egoísta.
  Ambos éramos oriundos do sertão de Pernambuco (eu de Arcoverde, ele de Serra Talhada), mas tínhamos trajetórias completamente diferentes. Enquanto ele veio diretamente de Serra Talhada pro Recife, eu já havia percorrido outras regiões, morado em outras capitais, era, em suma, mais "viajado", e, por onseqüência desse e de outros fatores mais "lido" e mais politizado, apesar de dois ou três anos mais novo.
   Tínhamos em comum, além da origem sertaneja e do patrão banqueiro (convém dizer que o Estado-banqueiro tinha menos sede do sangue e do suor dos seus empregados que os banqueiros particulares...), o amor pela boemia e pela música, por isso não demorou pra que embarcássemos em memoráveis viagens a bordo de uma amizade tão recente quanto verdadeira, navegando canções e cervejas, virando e varando noites, amanhecendo nas saideiras, que não raro se alongavam manhã a dentro, ou a fora.
  Decorridos alguns meses, já arriscando aqui e ali a criação de uma composiçãozinha própria pra incorporar ao repertório repleto de Chicos, Robertos, Ayrões, Vinícius e outros de cacifes similares, que Cipriano espalhava nas noites com um violão e uma voz singulares (e eu ajudava com minha voz pequena e meu imenso "apoio moral"), escrevi, num guardanapo de bar (nome, muito bem escolhido, diga-se de passagem, de um blog que vale a pena visitar - vejam o link nesse site) um singelo poeminha, que ficou com Cipriano pra, quem sabe um dia, virar canção. Passaram-se dois ou três anos, a vida seguiu seu curso, eu casei, Cipriano casou, mudou-se do centro do Recife pro bairro do Cordeiro, veio uma daquelas enchentes que vez por outra visitavam o Recife daqueles tempos, e nessa o apartamento em que ele morava ficou submerso num lago de metro e meio de profundidade.
   Veio o ano de 1978, continuávamos no Banco do Nordeste, e havíamos criado, junto com outros amigos, um Grupo de Teatro ("Borandá"), que utilizava o auditório da antiga sede do DCE da UFPE, alí na rua do Hospício, no centro do Recife, que veio a ser invadida e lacrada pela famigerada Polícia Federal daquela época, que ao invés de investigar e prender traficantes e corruptos, centrava seus esforços em perseguir jovens idealistas, ditos "subversivos".
   Tínhamos novas atividades e novos amigos, mas nosso navio da boemia nunca havia deixado de fazer suas viagens. Eis que, numa reunião festiva do Borandá, no bar da Candelária, que ficava lá no final da praia de Candeias, quase Barra de Jangada, assim sem mais nem menos, sem qualquer comentário prévio, lá veio Cipriano soltando a voz num samba desconhecido: "Sentar na mesa de bar/ ao lado do grande amigo"... O grupo todo amou o samba, pediu bis e tris, cantou junto. "Que samba arretado, bicho! De quem é?" E a letra me parecia familiar... Aí ele puxou o papelzinho todo amarelado, quase se desmanchando, onde, na minha caligrafia, estavam as quatro estrofes escritas numa madrugada já esquecida, e falou: "Estava mexendo numas pastas de salvados da cheia, procurando alguns documentos, e encontrei isso. Aí não teve como não fazer a música na hora!"
   Não sei se a canção vai sobreviver a nós, ao nosso tempo, e vai emocionar alguém quando eu já tiver partido (Cipriano, infelizmente, já se foi). Mas, com certeza, já nasceu dando provas de ser "rinhenta" e difícil de se afogar...

PS: Se quiserem ouvir esse singelo sambinha sobrevivente, ele está disponível aqui no site, com uma "participação especial" de Cipriano (resgatada de uma fita cassete que também sobreviveu a muitas intempéries).
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UMA SEXTA FEIRA
27 de outubro de 2011

 UMA SEXTA FEIRA (Aroldo Galindo)

   Gostava de tomar umas e outras toda sexta-feira, com os amigos. Sua turma era pequena - raramente mais de cinco - mas de alto nível: o consumo nunca ficava abaixo de meia dúzia de brahmas per capita. O nível elevado, aliás, não se restringia ao consumo das geladinhas - ia do papo - onde a peteca se mantinha sempre lá no alto, fosse o assunto os olhos de Tereza ou o sonho de um mundo socialista - à qualidade das canções batucadas na mesa e apoiadas nos acordes do violão de Ze Foguinho, um dos membros permanentes da confraria.
     E verdade que raramente eram mais de cinco, mas nunca menos de dois, pois que ali ninguém levava jeito pra bebum fuleiro, desses que ficam entornando a loura e falando sozinhos (em voz alta, porque conversar sozinho em silêncio, e mantendo o nível, requer talento, e muito). Além do mais, estavam todos naquela idade, entre os vinte e os trinta, em que ninguém nunca fica sozinho - nem está preparado pra isso.
     E essa foi uma das razões para que se desse o que se deu.
    Reuniam-se, religiosamente (embora todos fossem ateus convictos, como convinha a uma patota daquela categoria), às sextas-feiras, no Rei dos Caldinhos, onde encontravam a cerveja mais gelada, o caldinho (como não podia deixar de ser) mais guaribado e o crédito mais fácil. Mas exatamente naquela sexta em que ele havia descolado uma grana extra e havia acabado de ler alguns extraordinários poemas de Brecht que estava seco pra comentar, deu-se que não apareceu ninguém. Sabe-se lá que caprichos do destino colocaram Tereza no caminho de um, uma gripe braba no roteiro de outro, a tia-de-longe-que-veio-de-visita na casa de mais outro... o fato é que ninguém apareceu. Com a grana extra no bolso, ele consumiu sua cota e, pra não deixar o nível cair, a cota de pelo menos dois dos ausentes, enquanto batia um talentoso (e silencioso) papo consigo mesmo.
     Lá pelas tantas, sozinho e calibrado, decidiu dar uma chegadinha na rua dos cabarés, onde não faltaria companhia pra tomar a saideira (ia esquecendo de dizer que estávamos numa cidade do interior de Pernambuco, e no interior - e naquela época, anos setenta - ainda tinha rua dos cabarés e até um certo romantismo no ambiente...).
     Vagueou um pouco pelas ruas de terra batida, dando aqui e ali uma brechada pelas portas assinaladas com as indefectíveis luzes vermelhas, e resolveu adentrar uma casa onde o ajuntamento de pessoas era um pouco maior. Com a vista um tanto enevoada - efeito do consumo das cotas dos confrades ausentes - recostou-se num balcão no centro da sala (achou um pouco fora do comum a localização do balcão, mas não se ateve a analisar melhor essa irrelevante questão). Estranhando o clima meio deprê do ambiente e o semblante de pouca-festa de algumas mulheres que estavam no sofá, resolveu comentar com um sujeito grandalhão que estava por alí.
- por que as meninas estão tão tristes?
Ao que o cara respondeu:
- e era pra estar alegre?
Foi aí que ele baixou os olhos pra "balcão" e viu o tampo de vidro, as flores e a cara amarelada de olhos fechados, a poucos centímetros do seu cotovelo.
- ela morreu de quê?
Formulou a pergunta procurando fazer cara de contrito, numa vã tentativa de disfarçar o engano e aliviar a barra, que de repente percebia estar pesando uns cem quilos.
- Não é ela, é ele. E morreu de tiro, hoje de manhã.
Murmurando qualquer coisa ininteligível, saíu dali rapidinho, a adrenalina transformando em nada todo o investimento etílico realizado na noite... 
      

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CIPRIANO
26 de outubro de 2011

     CIPRIANO (Aroldo Galindo)

   Chamava-se Antônio Cipriano - Cipri, pros amigos, Tota, pra família. Era um jovem sertanejo de Serra Talhada, Pernambuco. Foi meu grande amigo. Na lira dos vinte anos, dividimos muitas cervejas, canções e aventuras pelo Recife e adjacências. Era um verdadeiro "cabra da peste". Duro nas convicções ("um homem que não cumpre a palavra dada não tem moral pra mais nada"), forte nos músculos, incansável na lide sofredora típica de quem tem banqueiro por patrão, era dono de uma ternura sem tamanho no trato dos amigos e no acalanto das canções. Quando pegava o violão e soltava a voz nos botequins e madrugadas, espalhava magia, esbanjava simplicidade e aumentava o faturamento da Brahma e da Antártica, as duas cervejas que disputavam a preferência dos boêmios naquele Pernambuco dos anos setenta.
     O bicho era brabo, mas não "ciscador"; brabo sem alarde, sem propaganda. Se atingido na sua honra de sertanejo não abria nem prum trem. Numa de nossas madrugadas, aí pelas cinco, seis da matina fomos, nós dois e outros companheiros eventuais, tomar a saideira com chambaril na Nova Portuguesa, alí no centro de Recife, que ficava aberta 24 horas por dia - e hoje não existe mais (parece que já não há espaço pra aquele tipo de bares e boêmios). Lá pras tantas, depois de umas três ou quatro saideiras, Cipri resolveu pagar a conta, chamou o garçon e pediu a caneta emprestada pra preencher o cheque. Aí foi quando o cara fez a merda. Disse que não recebiam cheques sem fundos. Pior é que falou sério, não foi de brincadeirinha. Fizemos uma "vaquinha", esvaziamos os bolsos e conseguimos reunir os trocados suficientes.
Bom, aí era hora de encerrar o expediente e descansar no intervalo entre uma noite e outra. Estávamos todos no carro de um dos companheiros (ainda não havia lei seca...), e não rodamos mais que dois ou três quarteirões, quando Cipriano pediu pra descer. Ia ver se encontrava em casa uma certa musa, projeto de namorada, que morava ali pertinho. Beleza, como se diria hoje. Desceu, andamos mais duas quadras e eu falei que também iria arriscar minha sorte em empreitada semelhante. Fiquei por ali e os companheiros seguiram seu rumo. Na verdade, eu havia desconfiado daquela conversa, não muito comum da parte dele, e, guiado pelo meu instinto apurado de notívago, resolvi voltar à Nova Portuguesa, só por desencargo de consciência...
     Não deu outra. Cheguei a tempo de encontrar o "velho Cipri", sozinho, no meio da rua, chamando o assustado garçon que se entrincheirava atrás do balcão, pra "sair, ele e mais quem quisesse e se dispusesse, pra aprender que homem não passa cheque sem fundos". Precisei gastar toda a minha verve apaziguadora, meu poder de argumentação e minha moral de amigo pra contornar as broncas e acalmar os ânimos. Terminanos tomando mais umas quatro, o garçon bebeu conosco seus dois ou três copos e brindamos à nova amizade.
     E Cipriano pagou a rodada. Com cheque. 
 
      

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QUASE EXÍLIO
25 de outubro de 2011

QUASE EXÍLIO  (Aroldo Galindo)

     Uma sensação de exílio, de estranhamento. Estou aqui há mais de um ano e ainda me sinto um estrangeiro, um forasteiro... 
     Olhando direitinho, não era pra ser assim. Continuo no meu país, aqui falam a mesma língua (bom... melhor dizer "quase" a mesma língua - ainda acho meio esquisito ouvir "bom djia" toda manhã), ouve-se as mesmas músicas e os bares também têm sempre uma tv ligada e sintonizada na globo.
     Abre parênteses: às vezes me pergunto se a globo paga pra os donos dos bares e restaurantes. Nunca vi uma tv dessas sintonizada em outro canal (nem desligada, o que já seria uma grande dádiva!). E o detalhe importante é que pelo que tenho observado também normalmente não tem ninguém assistindo. Mas as tvs estão sempre lá: ligadonas. Fecha parênteses.
     Voltando ao mote inicial, não era pra eu me sentir mais assim, "de fora". Mas me sinto. Nunca me acostumei com o feijão preto no dia a dia, sem ser feijoada. E muito menos com o modo de preparo que suponho seja assim: "coloque meio quilo de alho em um litro de água, adicione uma pitada de feijão preto, deixe cozinhar por meia hora. Prove; se sentir necessidade, adicione um pouco mais de alho." Se for verdade o que diz a lenda, vampiro por aqui não deve se dar muito bem...
     Aliás, nesse capítulo da culinária, o negócio é sério mesmo. Já rodei que só a gota, mas não consegui comer um tira-gosto de charque frito do jeito "certo". Vem sempre aquele negócio desfiado e molhado . Já pedi pro garçom falar pro cozinheiro fazer "bem passado"; não deu certo, veio do mesmo jeito. Insisti, o cara falou: "já sei, o senhor quer ele bem queimado". "É isso!" eu disse. E veio aquele negócio desfiado e molhado.
E o danado é que chamam por aqui de "carne seca".
     Não me interpretem errado: não tenho a intenção de falar mal de nada. Vejam que o mote é minha sensação de exílio. Tá tudo muito certo, tá tudo muito bom, pra quem é daqui. Acontece que eu não sou. E olha que nunca fui lá muito chegado a gastrônomo. Nem gosto de cozinhar. Sempre achei que tiragosto era assim meio aquele negócio que a gente engole entre um copo e outro da loura gelada... Ah, taí uma coisa que não me estranhou: a cerveja daqui é muito boa, véi! E tem as novas que eu não conhecia. Não vou falar os nomes pra não dizerem que estou fazendo merchandaize... E em quase todo canto por aqui estão sempre geladinhas!

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